O cárcere dos ventos: destruição das serras pelos complexos eólicos

O cárcere dos ventos: destruição das serras pelos complexos eólicos

Capa de Livro: O cárcere dos ventos: destruição das serras pelos complexos eólicos
Parte da Vol 3 série:
  • O cárcere dos ventos: destruição das serras pelos complexos eólicos

O que é o vento? Para o Capital, assim como as matas, a água e a terra, é uma mercadoria. Os serviços ecossistêmicos que garantem a vida na Terra são ignorados diante da voracidade des- trutiva como grandes corporações econômicas geram riqueza destruindo a Natureza.

Recortando apenas um exemplo, não sem razão, a percepção dos povos indígenas e de ancestralidade africana que tratam a natureza como algo sagrado, dotado de espírito, é ridicularizada diante dos alicerces da adoecida civilidade moderna, essencial- mente ecocida. Para esses povos ancestrais Vento é Espirito. Para o Capital, mais uma commoditie.

Este livro tratará do “Cárcere dos Ventos”, uma metáfora para mostrar como os ventos estão sendo apropriados dentro de uma lógica capitalista eco e etnocida. Tocando apenas uma ponta dos graves problemas que sopram com a recente instalação de grandes complexos eólicos nas Serras do Sertão, queremos mos- trar que não se trata de um modo de produção de energia limpa, mas que é parte de um casamento perverso entre Estado e Capital operado a partir de métodos sujos.

Estamos diante de uma tempestade de destruição causada pelos complexos eólicos que estão se instalando nas Serras do Sertão. Para ilustrar a natureza dessa tragédia, recortaremos, apenas, o cenário caótico protagonizado pela empresa de origem francesa Voltalia que, neste momento, está destruindo áreas da região de Canudos, na Bahia, rota de voo de uma das aves mais raras do mundo, a Arara-Azul-de-Lear (Anodorhynchus leari). São décadas tentando tirar esta espécie do risco de extinção, entretanto, à revelia da recomendação do Ministério Público da Bahia e de diversas frentes ambientais do Brasil e do mundo para parar as obras, esta empresa, contando com o apoio do estado baiano, segue em marcha com sua ambição biocida.

Outra espécie, já extinta na natureza, a Ararinha-azul (Cynaopsitta spixii), está no vendaval dos impactos dos complexos eólicos. Sendo endêmica de Curaçá, norte da Bahia, tem se tentado sua reintrodução no seu habitat natural. Quisera o destino que este ambiente, onde viveram as ararinhas azuis, hoje está tomado por paredões de torres eólicas – liquidificadores gigantes de matar pássaros e morcegos. Caso seja possível sua reintrodução, não temos dúvida, os exemplares livres voarão para a morte. Estas trágicas realidades das duas ararinhas do Sertão estão bem descritas no capítulo escrito por Alan Bonfim, que também aborda a morte dos morcegos, os maiores plantadores de florestas do Planeta.

Em longo prazo, a operacionalização dessas mais de 3 mil torres já instaladas nas nossas Serras, atuam como vetores que aceleram a morte dos rios, riachos e nascentes, bem como o processo de desertificação do Semiárido, haja vista, matarem os verdadeiros jardineiros da Caatinga que são as aves e os morcegos. Sem árvores não há água e, sem aves e morcegos, não há árvores. Sem tudo isso, não há gente.

Destacamos, embora o Brasil seja signatário da Convenção sobre Espécies Migratórias de Animais Selvagens, tendo assu- mido o compromisso de conciliar, se necessário, a exploração do potencial eólico com a preservação e conservação dessa parte da nossa biodiversidade, o que observamos é um desprezo total pela manutenção da avifauna e da quiropterofauna em nossa região. Como destaca Alan Bonfim no seu texto, estimativas médias de mortalidade anual nos EUA em turbinas eólicas quantificam as colisões variando entre 20.000 e 573.000 pássaros por ano. Não é à toa que estamos chamando essas torres de “liquidificadores gigantes de moer passarinhos”.

Essa discussão que trata da relação entre eólicas e biodiversidade, diríamos mais, com a sociobiodiversidade, é complementada no capítulo do Professor José Alves de Siqueira, focando-se mais no Boqueirão da Onça. As espécies de felinos que existem nessa Unida- de de Conservação da Caatinga, são espécies gravemente atingidas com a destruição dos ambientes naturais dos topos das serras. Como está descrito nesse capítulo, o Boqueirão da Onça apresenta uma elevada diversidade de mamíferos com 32 espécies incluindo Panthera onca (Linnaeus, 1758) (Onça-pintada), o maior felino das Américas, Puma concolor (Linnaeus, 1771) (Onça-parda) e Tolypeutes tricinctus (Linnaeus, 1758) (Tatu-bola) (CAMPOS et al., 2019) e espécies de aves ameaçadas de extinção como Anodorhynchus leari (Bonaparte, 1856) (Arara-azul-de-lear) (ICMBIO, 2017), e raras como Augas- tes lumachella (Lesson, 1838) (Beija-flor-de-gravatinha-vermelha) (SOUZA et al., 2009) e Neomorphus geoffroyi (Temminck, 1820) ( Ja-cu-estalo) (ROOS et al., 2012).

O dilema das comunidades tradicionais da Bahia frente aos impactos socioambientais causados pelas eólicas será bem discutido no capitulo “Terras Públicas, Comunidades Tradicionais e Corredores de Vento: Caminhos da Energia Eólica na Bahia”, de Carolina Ribeiro e Gilca Oliveira. Nele, observarão como as comunidades estão sendo usadas como joguetes do Capital Eólico com a conivência do Estado.

Como podem ver, no decorrer desse livro, é difícil imaginar a energia eólica como uma energia limpa nos moldes como está sendo efetivada na Bahia, no Brasil. O Capítulo de Flávio Barrero, que trata do Complexo Eólico de Campo Formoso, desnuda a forma como esses parques eólicos vêm se instalando e destruindo a biodiversidade e desrespeitando o modo tradicional da ocupação humana em nossas serras. Merece destaque, em seu texto, suas análises dos Inquéritos Civis do Ministério Público que, também, responsabiliza o órgão li- cenciador e fiscalizador do Estado, o INEMA, pelos crimes ambientais associados à implantação das torres eólicas no território baiano.

Não há lugar na Bahia onde essa destruição pelas eólicas não esteja em movimento. Como descreve Gislene Moreira Gomes, no seu capítulo “Caçadores de Sacis: O Redemoinho de Projetos Eólicos na Chapada”, a opção por este modelo de desenvolvimento, que estamos chamando de eco e etnocida, avança, ignorando a participação das pessoas, e está sendo forjado num silenciado “acordão” entre o Estado e o Capital Eólico.

À nossa equipe da Nova Cartografia Social do Brasil (Núcleo São Francisco), nos competiu pensar nessa Cartografia do Invisível, como os ventos estão sendo mapeados e entregues ao Capital Privado em detrimento de todos os sentidos ecossistêmicos na região das Serras do Sertão. Nossa intenção com esse texto é deixar claro que o Estado está semeando ventos e nós estamos colhendo as tempestades. Como escreve Edmar Conceição, no seu capítulo “A Luta Quixotesca nas Serras do Sertão”, como Dom Quixote, é como se estivéssemos lutando contra moinhos de ventos. Entretanto, estamos alertas, estamos lutando contra moedores de gente, da natureza. Estes devem ser detidos e responsabilizados!

Este livro é apenas um pequeno recorte da tragédia que chega com as eólicas num território já arrasado com grandes mineradoras e outros graves impactos socioambientais. Nesse momento da história, a Bahia está materializando a sentença de morte das nossas Serras, de suas matas, dos seus rios, riachos e nascentes e, como consequência, de sua gente. A nós do Salve as Serras cabe a luta, também, para tirar das prisões do Capital, nossos Sagrados Ventos.

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História e Epistemologia da Ecologia Humana

Capa de Livro: História e Epistemologia da Ecologia Humana

Este livro é fruto de uma contínua e intensa experiência de aprendizagem de conhecer a Ecologia Humana. Longe de parecer um tratado ou manual, ele é a nossa história de aprendizagem. Nesse sentido, reflete nossas premissas, dificuldades e necessidades de aprendizagem. Ele também reflete a nossa busca acadêmica por construir um caminho de encontro entre o que se convencionou chamar de científico e toda uma diversidade de campos, experiências e racionalidades que o âmbito da cientificidade ainda não consegue se permitir apreender. Ele é também um diálogo salutar entre ciência e filosofia, razão e percepção, sensibilidade e historicidade, racionalidades e efetividade. Mas ele é, também, um mergulho no próprio campo da cientificidade, para além dos limites da disciplinaridade estrita e para aquém de qualquer determinatividade, pois é o simples “dispor-se” a uma nova aprendizagem.

Partindo de uma suposição errada, de que as questões que aqui estão já haviam sido por nós explicadas, descobrimos, na busca da correção de uma má produção, um universo desconhecido que nos cabia compreender. E, assim, na tentativa de resolver os problemas desta produção, um simples artigo para publicação, fomos arrastados para um processo de construção que nos tomou todo tempo para realização desta experiência de pós-graduação. Lutando contra o que julgávamos não deveria ser nossa necessidade, consumimos tempo em demasia no atendimento de legalidades que nos consumiram a vida de adversidades.

Assaltados por essa fatalidade, nosso exercício da racionalidade foi tomado por sensações de forte emotividade, que nos impediram, por um tempo, de nos dedicarmos à sua atividade. Passados os tempos de instabilidade, eis-nos mergulhados em um êxtase de busca e saciabilidade da cientificidade.

Secundados por aquela que divide a nossa afetividade e, mais, por aqueles que iluminam a nossa espiritualidade, elementais (Orixás) e espíritos de bondade, mergulhamos em um oceano sem fim de aprendizagem.

A experiência construída com esta pesquisa de pós-doutoramento transformou-nos não só intelectualmente, tornando-nos mais “sabido” – porém, necessariamente, não sábios – de aprendizagem, mas também psicologicamente, impondo-nos – em função da vida monástica que decidimos assumir, para dar conta do tamanho do desafio projetado – o desenvolvimento de atitudes que, antes, a nossa inteligência emocional não facultava.

Esta experiência também despertou, inevitavelmente, as nossas vulnerabilidades espirituais, em um momento de insulamento social, acadêmico, cultural, e mediúnico. Superar as dores dessa experiência e nos tornarmos melhor do que antes não foi nada fácil, e nem deveria sê-lo, se ainda permanecia, em nós, a intensa necessidade de emancipação.

Terminamos este livro com uma sensação de “completude”, como nunca havíamos sentido. Satisfeitos, não por termos feito o melhor, mas sim o possível dentro do campo das possibilidades, que sociohistoricamente nos fomos estabelecendo.

O leitor encontrar-se-á com um livro por se fazer, naquilo que ele oferece e promete oferecer, pois é, como já dissemos, uma tentativa de aprendizagem.
Falamos assim porque, em momento algum, tivemos a pretensão de figurar como a autoridade da História e Epistemologia da Ecologia Humana, pois há
muitos grandes e graúdos que conseguem sustentar este papel, mas não nós.

Preferimos, no entanto, assumir a responsabilidade de traduzir as citações em francês, inglês e alemão deste livro, sem que queiramos nos apresentar como autoridades nesses idiomas, mas tão somente em função de nossa necessidade de demonstrar, para o leitor, como nós entendemos cada um dos textos aqui arrolados. Procedendo assim, não transferiríamos a um tradutor a responsabilidade que apenas a nós caberia, pois foi no idioma original que tivemos acesso à bibliografia.

Críticas ao que fizemos? Estas não faltarão, e assim é o que esperamos, pois, se tal não ocorrer, só podemos ter uma conclusão: que o trabalho que fizemos pouco ou nada instigou a curiosidade reflexiva dos ecólogos humanos. 

Luciano Sérgio Ventin Bomfim

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Cosmologia e espiritualidade Potiguara

Capa de Livro: Cosmologia e espiritualidade Potiguara

O presente livro didático é fruto de uma auto-pesquisa coletiva, realizada entre o povo Potiguara em parceria com pesquisadores e professores não-indígenas, com o apoio do GEPeeeS/UFPB, do LEPoliTC/UFCG e incentivada pelo Coletivo de Pesquisa pela Valorização dos Saberes Potiguara. O conteúdo da cartilha foi construído coletivamente durante três anos, de 2015 a 2018, com a participação de lideranças, pajés, rezadeiras, parteiras, e acadêmicos Potiguara das diversas aldeias do território Potiguara no litoral norte paraibano.

Caberá aos professores e jovens Potiguara aprofundarem os seus conhecimentos sobre a sua cultura além dos conteúdos aqui apresentados e os registrarem, partindo das suas próprias pesquisas, práticas e experiências espirituais. Esperamos que o trabalho apresentado nesse volume seja somente o ponto de partida de um processo muito mais amplo de autoconhecimento dos jovens Potiguara.

Organização
Jan Linhart, Thiago Romeu de Souza

Autores
Maria Nilda Faustina Batista, Fátima Maria da Conceição, Pedro Eduardo Pereira

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Medicina tradicional Potiguara

Capa de Livro: Medicina tradicional Potiguara

O presente livro didático é fruto de uma auto-pesquisa coletiva, realizada entre o povo Potiguara em parceria com pesquisadores e professores não-indígenas, com o apoio do GEPeeeS/UFPB, do LEPoliTC/UFCG e incentivada pelo Coletivo de Pesquisa pela Valorização dos Saberes Potiguara. O conteúdo da cartilha foi construído coletivamente durante três anos, de 2015 a 2018, com a participação de lideranças, pajés, rezadeiras, parteiras, e acadêmicos Potiguara das diversas aldeias do território Potiguara no litoral norte paraibano.

Caberá aos professores e jovens Potiguara aprofundarem os seus conhecimentos sobre a sua cultura além dos conteúdos aqui apresentados e os registrarem, partindo das suas próprias pesquisas, práticas e experiências espirituais. Esperamos que o trabalho apresentado nesse volume seja somente o ponto de partida de um processo muito mais amplo de autoconhecimento dos jovens Potiguara.

Organização
Jan Linhart, Thiago Romeu de Souza

Autores
Maria Nilda Faustina Batista, Fátima Maria da Conceição, Pedro Eduardo Pereira

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Pensar desde a América Latina: A emergência de novas Heteroutopias

Capa de Livro: Pensar desde a América Latina: A emergência de novas Heteroutopias

As utopias projetam um porvir generoso como crítica do presente, mas são edificantes na medida em que ignoram as determinações necessárias à efetividade da justiça; de acordo com a origem etimológica, utopia significa lugar inexistente. Henri Lefebvre quis salvar o conceito acrescentando o adjetivo ‘experimental’: referia-se a utopias experimentais como forma de indicar um sonho mais consistente e capaz de perpassar a realidade. Pensamos que, nessa encruzilhada civilizatória em que estamos submergidos, é preciso, com Michel Foucault, falar em heteroutopias, isto é, de novos lugares emergentes que abalam e superam o sistema-mundo marcado pela colonialidade do poder. Heteroutopias consistem em novos espaços ordenados com base na forma-comunidade, voltados a soldar os mundos e criar, pela primeira vez, o humanismo universal, analógico e dialético.

Luiz Eduardo Gomes do Nascimento

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Amputações das Serras do Sertão: Ecocídeo e Mineração na Bahia (Volume 2)

Capa de Livro: Amputações das Serras do Sertão: Ecocídeo e Mineração na Bahia (Volume 2)

Esta obra denuncia a destruição das nossas serras pelas agressivas atividades das grandes mineradoras e garimpos ilegais estruturados em toda a cadeia de nossas montanhas. Como regra: explora-se os bens naturais do Sertão, destroem os ecossistemas e levam toda a riqueza da nossa Gente e, para piorar, nos penalizam com passivos socioambientais inapagáveis e impagáveis!

O nosso Sertão responde por mais de 60% de toda a riqueza mineral da Bahia. Mas porque estamos imersos em toda pobreza?

O livro que foi produzido com o apoio do Fundo Casa Socioambiental (casa.org.br) é parte das atividades do Projeto Quilombos, financiado pela Fundação FORD, coordenado por: Dr. Juracy Marques (Grupo de Pesquisa em Ecologia Humana – GPEHA-PPGECOH-UNEB), Dr. Franklin Plessmann de Carvalho (NEA Nova Cartografia Social/UFRB) e Dra. Vânia Rocha Fialho de Paiva e Souza (LACC/UPE). Deriva de uma pesquisa que integra as ações do Projeto Nova Cartografia Social do Brasil, coordenado pelo Dr. Alfredo Wagner Berno de Almeida, desenvolvida em parceria com o Movimento Salve as Serras (salveasserras.org), com a Sociedade Brasileira de Ecologia Huma- na – SABEH e com o Programa de Pós-Graduação em Ecologia Humana e Gestão Socioambiental (PPGECOH/UNEB).

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Descomplicando as identidades LGBTQIA+

Capa de Livro: Descomplicando as identidades LGBTQIA+

Já parou para pensar que todos/as somos marcados/as pelo gênero e sexualidade? Apesar de ser algo comum a todos/as, temos uma tendência a não falar sobre o assunto, a não problematizar e considerar esses marcadores como naturais, como algo que está posto e pronto. Porém, quando percebemos que tanto o gênero quanto a sexualidade são construções sociais passamos a considerar novas possibilidades e enxergar uma diversidade que sempre foi invisibilizada.

O interesse em escrever este livro (e-book) surgiu de algumas inquietações ocorridas durante o meu processo de formação, quando tive acesso aos Estudos Queer durante o curso do Mestrado em Cultura e Sociedade (UFBA), trazendo à tona memórias e vivências da minha homossexualidade e possibilitando problematizar como eu lidava com minha sexualidade em sociedade.

Passei então a questionar as relações de poder que giram em torno dos marcadores sociais. Esses momento foi o start para o desenvolvimento de minha pesquisa de doutorado (UFS), que teve como resultado a defesa da Tese “Diáspora Trans: mobilidades e migrações espaçotemporal e de gênero”.

Esses anos de pesquisa sobre gêneros e sexualidades revelaram a carência que existe de debate sobre as identidades, práticas, desejos e culturas que compõe
a população LGBTQIA+ em todas as áreas de formação acadêmica. Quando pensamos no ensino básico e médio, essa ausência é ainda maior.

Após a idealização e coordenação do minicurso “Gêneros e Sexualidades em debate” (2020) e do curso “Tecendo o saber sobre as identidades LGBTQIA+” (2021)
foi possível perceber por meio dos depoimentos das/os participantes, a carência de materiais e discussões com uma linguagem acessível sobre gêneros e sexualidades.

Pensando em contribuir para amenizar esta lacuna, escrevo este livro com a perspectiva de alcançar as/os jovens, professoras/es e outras/os profissionais que
desejem refletir melhor sobre as identidades LGBTQIA+ em suas relações pessoais, profissionais e sociais em geral. 

Com uma linguagem de fácil acesso, mesclando teoria e o cotidiano, o livro irá se debruçar sobre as peculiaridades e diferenças que acompanham as construções das identidades de gêneros e sexuais, possibilitando ser utilizado como material complementar em escolas públicas e privadas, organizações sociais, instituições religiosas e demais espaços de agrupamento de pessoas que estejam dispostos a dialogar sobre o assunto com o intuito de minimizar as violências que são
geradas pela falta de informação.

Cleber Meneses

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A (In)Sustentabilidade na dialética da inclusão / exclusão

Para nós é motivo de satisfação poder apresentar esta obra, fruto de esforço coletivo de vários pesquisadores e estudantes, que colocaram, diligentemente, suas energias em torno dessa contextura, demonstrando, assim, que a mobilidade do dito o é, também, do contradito. Esse sentido, simetrias e assimetrias formam um par dialético que se afastam e se aproximam e é nessa catarse que se apoia os esforços que emergem neste livro.

São tessituras em que se oferecem análises primorosas e é nesse movimento que somos içados aos rudimentos que pululam o nosso imaginário consciente e inconsciente. Nesse sentido, a obra tem como mote principal, a relação de conformidade-inconformidade entre inclusão e exclusão em seus diversos desdobramentos e multidimensionalidades, factuais e conceituais. O título da obra, A (in)sustentabilidade na dialética da inclusão/exclusão, já é por si, indicativa do que o leitor encontrará nos pronunciados e enunciados do livro.

Dessa forma, nota-se que inclusão-exclusão caminham juntas e assim sendo, encontraremos na própria lógica das relações contraditórias e desiguais do capitalismo, interatuando com outras dimensões do conhecimento, os achados dessa profícua reflexão epistemológica.O livro é dividido em duas seções. Na primeira, os autores se detém ao entendimento da relação da (in)sustentabilidade, inclusão-exclusão no contexto escolar. Nessa perspectiva, a centralidade das discussões giram em torno de relatos de experiências, discussões teóricas e empíricas acerca da formação acadêmica e escolar na educação em geral focados, sobretudo, mas não exclusivamente, nas pessoas com deficiências, sejam elas físicas ou psicológicas.

Nesse sentido, percebe-se que o setor educacional brasileiro ainda continua, contraditoriamente, em processo de exclusão abissal.Deduz-se da leitura dos escritos, que as instituições de ensino (que deveriam centrar atenção nas estratégias formativas de modo a dar acesso às pessoas com algum grau de deficiência) tem atuado, muitas vezes, em sentido inverso, ampliando a segregação de tais estudantes. O leitor há de entender os motivos pelos quais isso acontece. Só para denotar, percebe-se que a base desses problemas estão nas políticas públicas de educação e a elas se somam muitos outros fatores que concorrem para essa condição abismal.

Note-se que, apesar das escolas, no geral, não terem logrado êxito esperado com essa modalidade de ensino, é fundamental ressalvar os esforços feitos por muitos, dentre os quais se incluem os escritores dessa obra. É o que se pode asseverar a partir das narrativas emblematicamente demonstradas nestes escritos, quase todos concentrados em estudos acadêmicos e/ou nos relatos de experiências vivenciadas em instituições especializadas no atendimento de pessoas com deficiências.

Na segunda seção, a centralidade dos postulados giram em torno de contextos socioculturais e outras linguagens, ou seja, em sentido lato, poderíamos nos referir a abordagens que comportam a (in)sustentabilidade dos processos de inclusão-exclusão nas diversas matizes de conhecimentos que permitem perceber tais problemáticas, originárias das relações
contraditórias e desiguais das relações capitalistas. São essencialmente observadas as invisibilidades de Povos e comunidades tradicionais, os processos de segregação étnico-raciais, inclusive no âmbito acadêmico e escolar e as inquietações das lutas de classe nos processos de exclusão social.

Observe-se que a literatura, como instrumento de leitura de mundo em perspectiva multidimensional, é largamente contemplada nessa seção.

A leitura do eu e do outro (outridade) é acolhida, não só na perspectiva mimética, mas, também, nas relações que a literatura mantém com outras ciências, sobretudo daquelas que se detém à análise da espacialidade de fenômenos geográficos, muitos dos quais associados a potência didática, que tais leituras proporcionam como instrumentação pedagógica.

Diante do exposto, desejamos e recomendamos vivamente essa viagem pela leiturização (por esse pedacinho de leitura) e salientamos a importância de contextualizar as realidades vistas e vividas, bem como a necessidade de leituras críticas e articuladas ao mundo em que vivemos.

Socorro Almeida
Sérgio Malta
Sônia Lira
Organizadores

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Lições e memórias de uma pandemia

Capa de Livro: Lições e memórias de uma pandemia

No ano já quase esquecido de 2019, fomos acometidos por dois dos maiores desastres ambientais do século XXI: o rompimento da barragem B1 da mina Córrego do Feijão, no município de Brumadinho, estado de Minas Gerais e pelo vazamento de petróleo cru que atingiu 3 mil quilômetros do litoral Nordeste e Sudeste, eventos acontecidos no Brasil. Ao final deste mesmo ano, dado que os impactos ambientais e, por conseguinte os impactos psicossociais, superavam as ações de reparação, notadamente no último caso, onde responsáveis ainda eram espectros, os pesquisadores dedicados ao entendimento das relações multitemporais e espaciais dos humanos com o seu habitat, que representa o foco da Ecologia Humana (EcoH), reuniram-se num esforço interdisciplinar, como bem defende a mesma EcoH, para produzir conhecimento científico de qualidade e trazer à tona aspectos que passamos a considerar como relevantes às ações de reparação e entendimento de diferentes tipos de vulnerabilidades sociais desnudadas por estas questões.

No início do desenvolvimento do projeto, a equipe debruçou-se sobre diferentes temáticas, desde a Teoria de Gaia, passando pela análise de armadilhas sociais em contexto de abandono das políticas públicas, chegando até à análise dos vazios legais sobre responsabilização penal e ambiental, no caso de dano à costa brasileira. Contudo, no decorrer da ideação do trabalho, fomos todos “engolidos” pela necessidade de paralisação de grande parte das atividades laborais, em função da pandemia causada pela doença chamada de COVID-19, provocada por um vírus. Teórico ser mais basal na cadeia da evolução ambiental. E nos pareceu que o derramamento de petróleo ficou infinitamente pequeno frente aos desdobramentos desta pandemia, e Brumadinho desapareceu... pelo menos dos meios que, diríamos, de informação de massa, incluindo-se aí, as redes sociais.

Ainda assim, seguimos com o caminho, mas o que passou a inquietar-nos foi o rumo devido a tomar, frente ao que agora se nos apresentava. A necessidade premente passou a ser, à luz das mesmas motivações iniciais, entender como havíamos chegado a este ponto, se tínhamos clareza sobre o porquê aqui chegamos e como daqui poderíamos seguir caminhando.

Pensando num público amplo e que continua ávido por conhecimento, em detrimento de compêndios de informação, tecemos uma linha, em rede, no sentido de fornecer subsídios
factuais para o entendimento acerca dos vazios estruturais e estruturantes forjados pela espécie humana, que foram capazes de romper a fronteira natural, entre esta e as demais que compõem a Biosfera. E é daí que Lições e Memórias de uma Pandemia nasce com o objetivo de visibilizar esta teia, não como uma armadilha, mas como o que ela poderia chegar a ser para uma aranha: um locus de descanso e nutrição. As lições podem ser extraídas do olhar sobre as refinadas estratégias de auto-predação da espécie humana,
com base em uma análise sobre a conexão entre esfacelamento do poder público (Políticas públicas e Projeções), a urgência sobre a memória da consciência de si e a consciência do todo (Reminiscências e Nevoeiro), desastres ecológicos-humanos (Agroecologia e Ecologia médica), e o exemplo de um caminho possível de convivência pacífica e inteligente com sua própria e única casa, através do entendimento da equilibrada e resiliente EcoH de povos e comunidades tradicionais (Povos indígenas e Direitos do
mar), para além do assustador número de casos de contágio e mortes pela COVID-19 que, de vidas humanas, por excesso de repetição de uma informação, passou a ser estatística.

Iramaia De Santana
Doutora em Biologia Marinha e Aquicultura

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Ecocídio das Serras do Sertão

O “Movimento Salve as Serras” no Verde Campo de Batalhas dos “Refugiados Climáticos”

Neste lançamento do “Movimento Salve as Serras”, mais especificamente as Serras do Sertão Nordestino, objetiva-se deflagrar uma campanha de proteção ambiental com denúncias e mobilizações em defesa da preservação das cadeias de terrenos montanhosos, escarpas, elevações e quebradas que se estendem desde a Serra do Espinhaço (MG e BA), alcançando a porção que vai de Jacobina a Jaguarari (BA) até se estender por Pernambuco e Ceará adentro; regiões dominadas pelo clima tropical semiárido e caracterizadas por uma complexa diversidade social. O sertão nordestino consiste numa região de grande biodiversidade, que registra os mais baixos índices pluviométricos em todo o país - e as áreas que apresentam menor pluviosidade estão localizadas no Submédio São Francisco entre os estados da Bahia e Pernambuco, justamente onde se concentra o cerne destas mobilizações ambientalistas que ora estão convergindo para a criação do “Movimento Salve as Serras”.

Este momento em que ocorre o lançamento é marcado não só pela pandemia, declarada em 12 de março de 2020, que agrava as desigualdades sociais, mas também por pelo menos três fatores sobre os quais convido a todos vocês para uma necessária e cuidadosa reflexão. Em primeiro lugar, constata-se, no plano internacional, uma intensificação das lutas contra o racismo e contra atos de estado inspirados em ações autoritárias e nitidamente colonialistas. Em segundo lugar, observa-se o desencadeamento de um processo de lutas acirradas, com multidões que tomam ruas e praças em grandes metrópoles de diferentes países, com importantes conquistas como estas que tornam o racismo - e, sobretudo, o racismo ambiental - um crime. E, finalmente, para efeitos analíticos os casos de financeirização da questão ambiental ou como o mercado financeiro se conecta hoje com a natureza. Tais modalidades de financeirização dos problemas ambientais parecem se articular com a elevação geral de preços nos mercados de commodities agrícolas, minerais e mínero-metalúrgicas, que agravam ocorrências de devastação, de queimadas, de grandes incêndios deliberados, de desmatamentos cada vez mais ampliados e de usurpação de direitos territoriais. Elas refletem diretamente nesta urgência da campanha “Salve as Serras”. Uma ação mobilizatória em tudo emergencial.

Esta campanha, que já é uma realidade, faculta possibilidades de consolidação de novas formas político-organizativas voltadas precipuamente para a proteção ambiental das serras sertanejas. Este é o ponto a ser aqui sublinhado. São elas que propiciam condições necessárias para o surgimento de um relevante movimento social apoiado em comunidades com raízes locais profundas, que possuem uma consciência ambiental aguda, bem como em fatores identitários e numa perspectiva inovadora no uso de critérios de proteção e defesa do meio ambiente. Os laços entre seus componentes têm sido construídos virtualmente, como ditam as normas sanitárias nestes tempos de pandemia, com pouquíssimas intervenções presenciais e sempre baseados numa redefinição do conceito de tradicional, trazido criticamente para o presente e ressemantizado de maneira apropriada. Do meu ponto de vista, tem-se mais um capítulo de mobilizações populares, não restritas a um grupo ou segmento social determinado, voltadas para a proteção ambiental, sob o manto da dimensão regional, segundo uma presencialidade do passado, assim expressa, resumidamente, nas várias falas registradas em rede, através de interlocuções virtuais: Somos de regiões de serras, que tradicionalmente mantiveram recursos naturais estratégicos para a vida no Semiárido, os quais têm que ser protegidos mediante tantas ameaças e ações predatórias de mineradoras, agronegócios e empreendimentos de energia eólica, porque constituem a garantia de nosso futuro.

Alfredo Wagner Berno de Almeida

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