Ecocídio das Serras do Sertão

O “Movimento Salve as Serras”
no Verde Campo de Batalhas dos
“Refugiados Climáticos”
Alfredo Wagner Berno de Almeida
Neste lançamento do “Movimento Salve as Serras”, mais especificamente as Serras do Sertão Nordestino, objetiva-se deflagrar uma campanha de proteção ambiental com denúncias e mobilizações em defesa da preservação das cadeias de terrenos montanhosos, escarpas, elevações e quebradas que se estendem desde a Serra do Espinhaço (MG e BA), alcançando a porção que vai de Jacobina a Jaguarari (BA) até se estender por Pernambuco e Ceará adentro; regiões dominadas pelo clima tropical semiárido e caracterizadas por uma complexa diversidade social. O sertão nordestino consiste numa região de grande biodiversidade, que registra os mais baixos índices pluviométricos em todo o país - e as áreas que apresentam menor pluviosidade estão localizadas no Submédio São Francisco entre os estados da Bahia e Pernambuco, justamente onde se concentra o cerne destas mobilizações ambientalistas que ora estão convergindo para a criação do “Movimento Salve as Serras”.
Este momento em que ocorre o lançamento é marcado não só pela pandemia, declarada em 12 de março de 2020, que agrava as desigualdades sociais, mas também por pelo menos três fatores sobre os quais convido a todos vocês para uma necessária e cuidadosa reflexão. Em primeiro lugar, constata-se, no plano internacional, uma intensificação das lutas contra o racismo e contra atos de estado inspirados em ações autoritárias e nitidamente colonialistas. Em segundo lugar, observa-se o desencadeamento de um processo de lutas acirradas, com multidões que tomam ruas e praças em grandes metrópoles de diferentes países, com importantes conquistas como estas que tornam o racismo - e, sobretudo, o racismo ambiental - um crime. E, finalmente, para efeitos analíticos os casos de financeirização da questão ambiental ou como o mercado financeiro se conecta hoje com a natureza. Tais modalidades de financeirização dos problemas ambientais parecem se articular com a elevação geral de preços nos mercados de commodities agrícolas, minerais e mínero-metalúrgicas, que agravam ocorrências de devastação, de queimadas, de grandes incêndios deliberados, de desmatamentos cada vez mais ampliados e de usurpação de direitos territoriais. Elas refletem diretamente nesta urgência da campanha “Salve as Serras”. Uma ação mobilizatória em tudo emergencial.
Esta campanha, que já é uma realidade, faculta possibilidades de consolidação de novas formas político-organizativas voltadas precipuamente para a proteção ambiental das serras sertanejas. Este é o ponto a ser aqui sublinhado. São elas que propiciam condições necessárias para o surgimento de um relevante movimento social apoiado em comunidades com raízes locais profundas, que possuem uma consciência ambiental aguda, bem como em fatores identitários e numa perspectiva inovadora no uso de critérios de proteção e defesa do meio ambiente. Os laços entre seus componentes têm sido construídos virtualmente, como ditam as normas sanitárias nestes tempos de pandemia, com pouquíssimas intervenções presenciais e sempre baseados numa redefinição do conceito de tradicional, trazido criticamente para o presente e ressemantizado de maneira apropriada. Do meu ponto de vista, tem-se mais um capítulo de mobilizações populares, não restritas a um grupo ou segmento social determinado, voltadas para a proteção
ambiental, sob o manto da dimensão regional, segundo uma presencialidade do passado, assim expressa, resumidamente, nas várias falas registradas em rede, através de interlocuções virtuais:
Somos de regiões de serras, que tradicionalmente mantiveram recursos naturais estratégicos para a vida no Semiárido, os quais têm que ser protegidos mediante tantas ameaças e ações predatórias de mineradoras, agronegócios e empreendimentos de energia eólica, porque constituem a garantia de nosso futuro.
Multidisciplinary Perspectives about Disasters

- Revista Ecologias Humanas - Vol. 1 nº. 1 - 2015
- NASCER DO RIO
- ECOLOGIA HUMANA: Uma visão global
- Multidisciplinary Perspectives about Disasters
- Ecocídio das Serras do Sertão
O Livro foi organizado sob a responsabilidade do Núcleo de Pesquisa em Desastres da Universidade Federal do Rio Grande do Norte ("NUPED-UFRN"). Os autores envolvidos criaram capítulos em três idiomas, inglês, espanhol e português, como estratégia de divulgação dos estudos de RRD realizados na América Latina.
Por mais recente que seja, os riscos e desastres têm desempenhado um papel importante na literatura científica internacional. Assim, pode-se observar que os eventos extremos têm causado prejuízos imensuráveis a múltiplos setores da sociedade, especialmente àqueles que se encontram em alta vulnerabilidade social, principalmente quando a realidade latino-americana reside na atuação desrespeitosa e negligente dos governos para com seus cidadãos. Os argumentos de tais governos baseiam-se exclusivamente no próprio fenômeno, ou seja, a busca premeditada pela naturalização do conceito de desastre, e não consideram os resultados derivados de omissões e medidas ineficazes.
A História tem ensinado à comunidade científica que a negligência descontextualizada dessa área significa desconhecer a complexidade do campo e os impactos em nosso cotidiano. A necessidade de uma mudança de atitude da comunidade científica e, consequentemente, uma transformação do paradigma em relação aos desastres, ou seja, a desnaturalização do conceito. Atualmente, a Pandemia Covid-19 tornou explícito o que falta ao governo apresentar ao público, ou seja, as vulnerabilidades do sistema e os interesses envolvidos, uma vez que os governos tomam medidas ineficazes para a prevenção e controle de eventos extremos com múltiplas vítimas.
Revista Ecologias Humanas 2020 Vol. 6 nº. 7
ISSN: 2447-3170
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EDITORIAL
O ano 2020 entra na História da espécie humana (Homo sapiens sapiens), como um período marcado pela angústia, pela incerteza, pelo medo... Vimos uma espécie que se auto proclama como primazia da natureza em relação aos outros seres que coabitam a terra, se amedrontar frente ao ataque mortal de um vírus 2019-nCoV (Covid -19) cuja potência de disseminação faz com que a contaminação se espraie velozmente.
Nesse contexto, fica evidente que os processos de aceleramento técnico-científicos que possibilitam deslocamento de pessoas de forma muito mais rápida, tanto no âmbito nacional quanto internacional, acabam por permitir e/ou facilitar um maior índice de contaminação em escala planetária num curtíssimo espaço de tempo.
leia maisDiante dessa nova realidade, a humanidade mergulha num desequilíbrio ecossistêmico sem precedentes na História. A aparente normalidade em que se encontrava a humanidade dá lugar a presentificação factual e, dessa forma, a incerteza do amanhã e o desespero atingem a todos uma vez que, passados onze meses do início da catástrofe, não se tem, ainda, um medicamento eficaz nem vacina em quantidade bastante para inibir esse mal que assolou o planeta, desertificou cidades e esvaziou a vida de milhões de pessoas.
É importante assinalar que esse mesmo humano, em geral, se opõe ao entendimento de que ele próprio é parte intrínseca da natureza e, agora, se vê numa condição de impotência e se dá conta da incapacidade de fazer com que as engrenagens do capitalismo (marcadamente caracterizadas pelas contradições sociais, pela perversidade e pelas desigualdades) funcionem adequadamente, num contexto pandêmico.
Assim, as estratégias de reprodução capitalista, tornam mais aguda a crise social. Nesse contexto, são as populações pobres que mais sofrem com a pandemia. São a elas negadas, pelo contexto de periferização, o acesso às condições sanitárias básicas para o enfrentamento da doença. É diante e em virtude de todos esses aspectos, que a Revista da Sociedade Brasileira de Ecologia Humana traz o presente dossiê.
O primeiro artigo de Gisele Duarte intitulado: “As plantas alimentícias não convencionais como contributo de subsistência e sobrevivência em tempos de escassez de alimentos”, traz à tona conhecimentos valiosos sobre segurança e autonomia alimentar, a partir do manejo de espécies ainda pouco conhecidas, mas de grande valor ecológico-alimentar.
O Segundo artigo, do professor Sérgio Murilo dos Santos, explica como “os riscos da sociedade mundial, diante dos perigos naturais, biológicos e tecnológicos e da Covid-19”, são prementes, ante as ‘ameaças’ daquilo que se denomina “sociedade de Risco”.
No terceiro artigo, o Professor Carlos Alberto, pesquisador e docente permanente do Programa de Pós-graduação em Ecologia Humana e Gestão Socioambiental – PPGEcoh, discute as práticas zooterápicas da Etnia Truká. No estudo, o professor não só identifica diferentes espécies como também os usos zooterapêuticos e métodos de uso para promoção da saúde da referida comunidade. Lembra, também, que tal característica não exclui o acesso à medicina convencional.
No quarto artigo, o professor Paulo Sérgio Farias analisa o contexto de isolamento social e discute sobre experiência espaço-temporal de um período que ele denomina de tempo suspenso e de contenção territorial.
No quinto e último capítulo, o professor Ávila-Pires se debruça sobre o que ele chama de categorias falsas e, também, sobre correlações duvidosas e cálculos inadequados difundidos em redes virtuais que, muitas vezes, levam a conclusões epidemiológicas falhas.
Por fim, na seção Notas, encontraremos os escritos do professor Nilson Cortez em que ele traça itinerários para entender a História da Geografia, mergulhando numa das derivações dessa ciência que é a Geografia da Saúde Humana. Diante dos enunciados propostos pelos autores, no sexto número da Revista da SABEH, nos juntamos a todos e todas para a leitura de mundo difundida nesse periódico, na expectativa de que as aprendizagens proporcionadas possam resultar em saberes que, de certo, serão muito importantes para todos nós, ao tempo em
que retroalimentarão a rede de conhecimento sobre as temáticas já existentes e que tratam das discussões aqui delineadas.
Coordenação do Editorial
Profa. Dra. Maria do Socorro Pereira de Almeida.
Universidade Federal Rural de Pernambuco - email: socorro.almeida@ufrpe.br
Prof. Dr. Sérgio Luiz Malta de Azevedo
Universidade Federal de Campina Grande - email: sergio.malta@ufcg.edu.br
BOLETIM INFORMATIVO Pescadoras e Pescadores Artesanais do Cânion do São Franscisco
ISBN Impresso: 978-65-5732-025-9 ISBN Digital: 978-65-5732-024-2

- Revista Ecologias Humanas - Vol. 2 nº. 2 - 2016
- BOLETIM INFORMATIVO Pescadoras e Pescadores Artesanais do Cânion do São Franscisco
O fascículo das comunidades pesqueiras teve o propósito de dar visibilidade a presença da pesca artesanal na região do Cânion, uma vez que o governo pretendia criar uma unidade de conservação integral, onde a categoria ambiental de Parque, proposta inicial, levaria ao deslocamento de inúmeras famílias, a exemplo do deslocamento de cidades, comunidades, povoados retirados compulsoriamente com a construção dos barramentos hidrelétricos no São Francisco.
A região não suportaria mais deslocamentos, o que levou agentes do Ministério do meio ambiente e do Ministério Público, apresentar proposta de criação do MONA, categoria menos restritivas que possivelmente, consideraria atividades como a criação de pequenos animais e a pesca artesanal. Neste período, os pescadores artesanais realizaram inúmeras mobilizações sociais com audiências públicas junto ao Ministério Público, entre outras ações de natureza organizativa.
A construção do fascículo da nova cartografia social junto aos pescadores e pescadoras artesanais, foi um importante instrumento que deu visibilidade a pelo menos de 1200 famílias pesqueiras presentes nesta região. Inúmeros debates avaliaram os impactos que as populações
locais teriam com a criação do MONA.
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Povo Tuxá das Águas do Opará
ISBN: 978-65-5732-023-5
A Série Povos Indígenas do São Francisco, parceria entre o Projeto Nova Cartografia Social do Brasil e a Editora SABEH, apresenta o livro: Povo Tuxá das Águas do Opará, que reune uma série de textos sobre o Povo Tuxá de Rodelas/BA.
“O povo Tuxá segue na luta pela demarcação do seu território tradicional D’zorobabé, na tentativa de darmos continuidade às práticas tradicionais e/ou culturais, contribuindo assim para a transmissão e manutenção dos conhecimentos étnicos do nosso povo. A cartografia social chega em um novo momento, de tentativas de violações a esses direitos territoriais por parte do projeto econômico e político do Estado, porém nos desperta mais um motivo, para continuarmos tendo esperança, pois até onde alcança a memória comunitária e as bibliografias do meu povo, sempre tivemos força e coragem, mesmo diante de todas as ameaças e violações de direitos indígenas. Seguindo essa luta em prol do bem-viver comunitário e do direito de continuarmos (r)existindo enquanto comunidade indígena.”, destacou Ayrumã Tuxá.
O livro reune autores e autoras de diferentes áreas do conhecimento, enriquecendo ainda mais a bibliografia sobre o Povo Tuxá, destacando a presença de autores Tuxá: Luiza Assis de Oliveira (Ayrumã Tuxá), Felipe Cruz Tuxá e a cacique Antonia Flechiá Tuxá, além de pesquisadores da antropologia: Leandro Durazzo e Ricardo Salomão, e da Ecologia Humana: Nilma Carvalho, André Souza, Alzeni Tomaz e Juracy Marques.
Link para download: Livro Povo Tuxá - Ebook_compressed
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CATUNI DA ESTRADA: PORTAL DAS AGUAS DA SERRA
ISBN: 978-65-5732-020-4
Catuni da Estrada é um corpo social pertencente ao território político da cidade Jaguarari, localizada no sertão baiano. A vista é marcada por uma peculiar transição entre Mata Atlântica e Caatinga Florestada, a vegetação é rasteira arbustiva e arbórea. Algumas árvores alcançam mais de 50m, o que evidencia a existência de uma floresta densa e diversificada. Atualmente a flora vem sofrendo mudanças constantes e gradativa, estando profundamente ligado ao processo de ocupação humana dos espaços. Trata-se de enclaves de mata úmida dentro de uma região onde as precipitações orográficas (aspectos de um determinado relevo) são inconstantes, formando os conhecidos “Brejos de altitude”. As chuvas são mais frequentes entre os meses de março a julho, tornando o clima ameno e com um verde exuberante. A paisagem como um todo é munida de recursos suficientes para diferenciá-la, sendo percebida através de uma plasticidade que vai moldando toda a sua composição biogeográfica. O espaço físico serrano possui rochas cristalinas auto-organizadas, que são esculpidas em superfícies suavemente onduladas, apresentando crista superior a mil metros acima do nível do mar.
Está fincado na mesorregião do norte baiano e microrregião de Senhor do Bonfim, Catuni está inserido no Território de Identidade do Piemonte Norte do Itapicuru, localizado ao sopé sul da Serra do Gado Bravo numa altitude de 603 metros. Possui uma localização privilegiada, como é sempre verde em todos os meses do ano, é constantemente abastecida de frutas (abacaxi, banana, jaca, manga…) da região denominada “grota”, inserida nas escarpas da cordilheira de Serra do Espinhaço1. Atrás do Vale Catuni sucedendo serra acima, revela-se desfiladeiros e paisagens de grande perfeição. O longo caminho passa ao lado da barragem que possui uma variante à esquerda, conduzindo até um entroncamento onde a direita está a grota do Pripiri e a esquerda está a comunidade de Cachoeira dos Betes, passando ao pé do Morro Redondo e seguindo pelos caminhos dos remanescentes engenhos de Cana-de-açúcar.
O Povoado de Catuni é, hoje, um arruamento que fica à margem da ESTRADA DE FERRO DA BAHIA AO SÃO FRANCISCO (EFBSF), num ponto equidistante entre a capital Salvador e o interior do estado, em Juazeiro. A distribuição espacial tem como formato principal uma Meia Lua de onde emerge ramificações.
Suas ruas são: Rua Nova, Rua Alto Bonito, Rua do Matadouro, Rua da Praça São Vicente de Paula, Rua da Areia, Rua Santa Tereza e Rua Olhos D’água.
Na entrada da vila existe uma imagem do padroeiro católico São José que vai sentido Escola Municipal Maria Ivete e posteriormente na Igreja. Logo, percebemos casas e casarões espalhados pelo percurso. As construções históricas remetem a arquitetura colonial brasileira, transpassando seus dois séculos de existência. Tendo como pano de fundo as serras que criam uma visão panorâmica na linha do horizonte.
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POVO TRUKÁ-TUPAN: a natureza sagrada tem aviso e tem encanto
ISBN 978-65-5732-018-1
O aldeamento Truká-Tupan é marcado por desterritorialização e a reterritorialização é composta por uma identidade interétnica, que atua num regime em torno da organização Indígena. As famílias aguardam a demarcação da reserva no território que corresponde a área do Alto do Aratikum, a 9 quilômetros do município de Paulo Afonso – Bahia, a área segue o Riacho Alto do Aratikum até o desembocar no Rio São Francisco na PA 4.
São terras devolutas, marcadas por processos de reintegração de posse e as adversidades do tempo e do espaço. Com as secas prolongadas e dificuldades de acesso a água a partir do São Francisco, a comunidade busca alternativas de armazenamento de água, uso e sustentabilidade na produção.
O modo de vida Truká-Tupan, se constitui a partir de experiências com iniciativas de tecnologias sociais como a confecção de tijolos ecológicos para pequenas construções, bem como, a transição de um modo de produzir considera- do ecológico e espiritual através de pequenos roçados, produção apícola, entre outras iniciativas que fortalecem as suas identidades. Suas iniciativas estão intrinsecamente ligadas a uma cosmovisão Indígena, num olhar cuidadoso, se relacionado com a ideia do Bem Viver.
A Aldeia é comandada pela Cacica Erineide, que carrega uma ancestralidade ligada a orientação política e espiritual. A marca de gênero constitui relações diferenciadas neste aldeamento. É na força do cacicado feminino que o lugar da mulher deixa de ser invisível para dar lugar a dois importantes elementos: a autoridade organizativa do grupo e a dimensão simbólica que constitui espaços sociais e produtivos de transmissão de conhecimentos e valores de natureza equitativa.
A coleção de artigos publicados nesta edição, reúne aspectos de construções identitárias e territoriais que apontam modos significativos de viver, associados a costumes e culturas transmitidos e constituídos por esta ‘Bela Aldeia’.
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ECOLOGIA HUMANA: Uma visão global

A Ecologia Humana é uma área de formação e de investigação que adota uma perspectiva pluridisciplinar para analisar as interações entre os sistemas sociais e os sistemas ecológicos estimulando a emergência de competências transversais e especializadas para a leitura das mudanças sociais e ambientais que resultam dessa interação.
A Ecologia Humana é uma área de formação e investigação consolidada ao nível mundial. Para além dos EUA, onde um elevado número de Universidades tem departamentos ou oferece cursos em Ecologia Humana ou do Canadá, estes encontram-se também em universidades do México, da Austrália, do Japão, da China e na Europa, de Portugal, da Alemanha, da França, da República Checa e da Inglaterra, entre outras.
Para além disso existe um conjunto amplo de revistas temáticas que publica artigos nesta área. Entre elas podemos destacar a Human Ecology, editada pela Springer, que publica regularmente desde 1972 artigos sobre o papel dos fatores sociais, culturais e psicológicos na manutenção ou degradação dos ecossistemas e os efeitos da densidade populacional sobre a saúde, a organização social e a qualidade ambiental; o mais recente Journal of Human Ecology, publicado em Nova Deli, Índia, divulga desde 1990 artigos na área interdisciplinar da Ecologia Humana; a Society for Human Ecology edita a sua própria revista desde 1993, a Human Ecology Review que publica artigos teóricos e de investigação sobre a interação entre o ser humano e o ambiente; e a HUMAN ECOLOGY: An Interdisciplinary Journal, editada pelo Departamento de Antropologia do Hunter College, da Universidade da cidade de Nova Iorque publica desde 1972 artigos de investigação em áreas diversas desde a antropologia, a geografia, a psicologia, a sociologia e o planeamento urbano.
Aguardamos com muita expectativa a edição da primeira revista em língua portuguesa para acolher os artigos da nossa crescente comunidade de ecólogos humanos. Essa revista “Ecologias Humanas” será da responsabilidade da Sociedade Brasileira de Ecologia Humana (SABEH).
Trata-se assim de uma comunidade internacional vibrante e dinâmica que acolhe um crescente número de pessoas que procuram a pluridisciplinariedade, o convívio entre saberes de várias áreas científicas, a liberdade para desenvolverem a sua investigação num contexto que acolhe a diferença e a diversidade. Esta postura diferencia-a de outras ciências especializadas, fechadas em “silos epistemológicos” e em que as fronteiras do que é ensinado e investigado estão bem definidas. A Ecologia Humana distingue-se pela forma como “olha para o mundo envolvente” onde também não existem fronteiras bem definidas pois os fenômenos ambientais e os fenômenos sociais são interdependentes.
Mas afinal o que é a ecologia humana? O que é que estuda?
Quais são as inquietações que movem os ecólogos humanos?
Como as abordam e investigam?
Nesta coletânea de textos encontramos respostas para essas questões e ficamos a perceber melhor esta fascinante área de conhecimento.
Os 3 primeiros capítulos são elucidativos quanto à emergência da Ecologia Humana, seu objeto de estudo e o que a distingue das outras ciências.
No primeiro capítulo Ronaldo Alvim, autor do livro “Ecologia Humana: da visão acadêmica aos temas atuais”, recentemente publicado, faz uma abordagem das Bases da Ecologia Humana referindo como ela se transformou numa ciência altamente especializada mantendo, ao mesmo tempo, uma visão holística, abrangente e transdisciplinar, condição que a torna complexa e mesmo difícil de ser definida.
leia maisRoderick J. Lawrence é o Coordenador do Grupo de Ecologia Humana do Instituto de Ciências Ambientais da Universidade de Geneve e escreve o capítulo sobre Dialogue Between Disciplines: Contributions of Human Ecology. Nele o autor explica como o contexto político, econômico, ambiental e social se alterou profundamente desde a década de 20, do século 20, quando a Ecologia Humana emergiu. Lawrence faz um percurso
pelas várias áreas científicas, desde a antropologia, a arquitetura e planeamento urbano, a economia, a epidemiologia, a psicologia, a sociologia e a teoria dos sistemas, com as quais de uma ou outra forma a ecologia humana interage, referindo o contributo que cada uma delas deu para o desenvolvimento da investigação em ecologia humana.
No capítulo sobre Ecologia Humana: Reflexões Sobre a Natureza da Humanidade, Juracy Marques, Presidente da Sociedade Brasileira de Ecologia Humana (SABEH), mostra como no estudo da dinâmica dos ecossistemas ficou de fora uma espécie, a espécie humana. Como refere a Ecologia Humana é uma ecologia que coloca gente nos ecossistemas e situa-se nas inquietações sobre essa relação entre a espécie humana e os
ecossistemas. Traça a evolução conceptual da ecologia humana desde a sua emergência ligada à Escola de Chicago, nas década de 10 e de 20, do século 20, passando pelo importante artigo de Robert Park “Human Ecology” publicado em 1936 no “American Journal of Sociology”, até à atualidade.
Iva Miranda Pires é coordenadora do Mestrado e do Doutoramento em Ecologia Humana, da Universidade de Lisboa. Na sua contribuição Problemas Sociais Complexos: O Olhar da Ecologia Humana caracteriza este tipo de problemas, de elevada complexidade e de difícil solução, mostrando como a Ecologia Humana, que propõe uma visão holística e pluridisciplinar, está bem posicionada para contribuir para os identificar e encontrar soluções.
Ajibola Isau Badiru, arquiteto e Professor Titular pela Universidade Tiradentes, parte de um conjunto de questões iniciais, em particular porque é que o planeamento socioambiental incorporou mais questões econômicas do que ambientais?para organizar o seu ensaio sobre Ecologia do Processo de Planejamento Socioambiental.
Desde a Revolução Industrial e consequente transferência de populações rurais para as cidades estas tiveram um crescimento explosivo o que coloca enormes desafios para a gestão destas áreas considerando a sua sustentabilidade. Descreve em seguida várias formas de gestão e de planeamento, nomeadamente planeamento ambiental, e ainda o Processo da Metodologia da Avaliação de Impactos Ambientais.
Masatoshi Yoshino é japonês e especialista em climatologia. No ensaio Tsunami Disaster as an Environmental Factor of Human Life and Society fala-nos no impacto que o tsunami de 2011 teve quer na população das áreas afetadas quer no território e da lenta recuperação dado o grau de devastação que ele provocou. Catástrofes naturais desta grandeza afetam o quotidiano das populações de diversas formas pelo que é necessária
uma abordagem holística, como a praticada pela Ecologia Humana, para encontrar soluções.
No capítulo Buen Vivir: Perspectivas de Mudança Civilizacional a Partir do Equador, Sónia Nobre, médica e voluntáriana da organização Médicos do Mundo, mostra que existem alternativas para o conceito de bem estar muito associado ao paradigma de desenvolvimento ocidental. Neste ensaio é apresentado o conceito de Buen Vivir que teria emergido nas décadas de 80 e de 90 do século XX, por intermédio dos movimentos
indígenas equatorianos. Desde essa altura o conceito de Buen Vivir, que assenta nas premissas fundamentais da harmonia e do equilíbrio entre todos os seres vivos, incluindo o ser humano e a Mãe Terra, fez o seu percurso no contexto acadêmico e político, suscitou amplos debates e inúmeras publicações até ter sido incorporado como fio condutor da nova Constituição equatoriana.
Amado Insfrán Ortiz e Maria José Aparicio Meza, ambos formados na área da Ecologia Humana no ensaio Hambre y Abundancia: La Doble Crisis Y Los Desafíos en el Campo de la Ecología Humana, utilizam a perspetiva holística e multidisciplinar da ecologia humana para discutirem a fome e a abundância, entendidas como uma dupla crise da Humanidade no início do seculo 21. Embora, dada a complexidade do tema, pareçam existir mais perguntas que respostas, impondo grandes desafios à ecologia humana, a recuperação de formas de alimentação local, associadas à cultura das comunidades e a recuperação dos ecossistemas como estratégias de desenvolvimento podem ser respostas possíveis.
Hernán Castellanos, doutorado em Ciências Biológicas e Ronaldo Gomes Alvim colocam esta questão de partida ¿ESel Desarrollo Sostenible Ajustado a la Visión de Equilibrio en la Ecología?.Desde que foi apresentado no Relatório Brundtland, em 1987, o conceito de desenvolvimento sustentado tem sido amplamente discutido, criticado, adotado, mal interpretado e re-inventado. É talvez um dos conceitos mais difundidos
e estudados; fazendo uma pesquisa simples no Google com a expressão desenvolvimento sustentável obtemos cerca de 21.400.000 resultados. Apesar de já terem passado quase três décadas desde a sua formulação continuam a persistir barreiras e algum desacerto social quanto à sua implementação, como bem mostram os autores.
Finalmente, Manuel Cesario no capítulo sobre Human Ecology on Ecosystem Services for Human Health, mostra que existe uma relação entre biodiversidade e saúde humana lamentando a pouca atenção que lhe tem sido dada. Apresenta quatro casos de estudo que mostram como a saúde humana depende da “saúde” dos ecossistemas e como ecossistemas preservados podem ter um papel importante na prevenção da doença. Por exemplo, a fruição da natureza selvagem ou um passeio num parque podem contribuir para o bem-estar psicológico, ecossistemas preservados são essenciais para uma larga parte da população mundial que ainda depende da medicina tradicional, ou mesmo a sua importância na reabilitação física ou na re-integração social acolhendo desde sanatórios a estâncias termais ou espaços de meditação. A Ecologia Humana, capaz de construir pontes entre a tecnologia, a sociedade e o ambiente, proporciona o enquadramento metodológico adequado para estudar estas inter-relações.
Este livro, que será lançado no II SEMINÁRIO INTERNACIONAL DE ECOLO GIA HUMANA — A pesquisa em Ecologia Humana, organizado pela Universidade do Estado da Bahia, Campus VIII, na cidade de Paulo Afonso, de 11 a 14 de Setembro de 2014, faz jus ao lema da Ecologia Humana pela diversidade de abordagens apresentadas, pela diversidade de temas, de autores, de formações e de nacionalidades. Confiamos que possa ser útil para todos os que já conhecem ou estão a iniciar o seu percurso de investigação na área da Ecologia Humana.
menosEducação para a Convivência com o Semiárido e Direitos Humanos
Experiências Educativas do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada – IRPAA
Este livro resulta do trabalho de pesquisa desenvolvido junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação e Contemporaneidade – PPGEduC/UNEB e busca levar ao leitor reflexões e inquietações humanas acerca de uma das questões atuais e desafiadoras, ainda invi- síveis aos olhos da grande mídia: a educação contextualizada em uma realidade semiárida, ao norte da Bahia, na perspectiva dos direitos humanos emancipatórios. A pesquisa ocorreu a partir do conheci- mento e análise das experiências voltadas para a convivência com o semiárido, desenvolvidas pelo Instituto Regional da Pequena Agrope- cuária Apropriada – IRPAA, abrangendo Comunidade Tradicional de Fundo de Pasto, situada no Território do São Francisco.
Em alguns municípios do semiárido baiano, vem sendo cons- truída uma noção de desenvolvimento local sustentada em paradig- mas vinculados às especificidades socioeconômicas, ambientais e cul- turais da região e que ultrapassam os interesses do capital. Novas concepções e alternativas surgem, tecem novas perspectivas com o propósito de estabelecer uma nova realidade, principalmente a partir
dos problemas enfrentados e tendo como protagonistas o ser huma- no e o meio ambiente.
Entre as propostas inovadoras de desenvolvimento sustentável, inclui-se a convivência com o semiárido, fundamentada na educação e baseada, em especial, na relação dialética entre o homem e a nature- za. A proposta de Convivência com o semiárido vem se consolidando numa perspectiva transformadora e busca, partindo do local, conscien- tizar os sujeitos a compreenderem o ambiente e os fenômenos naturais da região onde vivem, com vistas ao aproveitamento das potencialida- des e da construção das novas possibilidades diante das problemáticas encontradas. Traduz-se como um “prático socioespacial” novo.
Ecologia humana & pandemias: consequências da COVID-19 para o nosso futuro.
Quem nunca leu ou ouviu a frase do poeta, jornalista, filósofo e político cubano José Julián Martí Pérez (1853-1895)? “Na vida, cada pessoa deve fazer três coisas: plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro”. Em um momento pandêmico, no qual se faz presente a necessária reflexão sobre a vida e a morte, tal dito se torna ainda mais simbólico. É com essa introdução que tenho a satisfação de falar deste livro, destacando a importância da diversidade de registros do momento complexo que a humanidade está vivenciando, a partir do aparecimento do novo Coronavírus, o SARS-CoV-2.
Em um tempo em que o verbo viralizar ganhou tanta relevância, principalmente no contexto das redes sociais, eis que surge um vírus de uma família já conhecida, a qual vinha ensaiando disparar um processo capaz de paralisar o mundo dos seres humanos. Em 2002 um Coronavírus deixou a população da Terra alarmada com os riscos de uma pandemia mortal, porém a Síndrome da Angústia Respiratória Grave (SARS) atingiu aproximadamente 8000 pessoas, levando a óbito em torno de 800 e “desapareceu” em 2004. A vacina contra aquele coronavírus estava adiantada, mas sem novos casos, pra que gastar dinheiro com isso? Com o surgimento do novo Corona- vírus, acredita-se, no final de 2019, viu-se o quanto seria importante uma vacina, existente, que pudesse encurtar o caminho para uma solução na atual circunstância. O SARS-CoV-2 é extremamente virulento, altamente contagioso e capaz de sobrecarregar os sistemas de saúde, favorecendo significativa perda de vidas.
De fato, espera-se que a parada obrigatória sirva para grandes reflexões e ressignificações do nosso modus de vida. Estávamos cor- rendo tanto para que? O nosso estilo de vida é tão voltado ao consumo que mesmo em isolamento físico estamos trabalhando mais do que nunca? Sairemos melhores enquanto “gente” depois disso tudo? Ou voltaremos ao mesmo modelo que nos consumia para consumir- mos toda sorte de produtos?
Os autores, em seus olhares aguçados, frente aos desafios inerentes ao durante e ao pós-pandemia apontam para reflexões funda- mentais. O mundo já estava em crise antes da COVID-19 virar notícia, expondo, de maneira irrefutável, a falência do modelo neoliberal, voltado a acumulação financeira, o qual privilegia pequenos grupos abastados e leva a extrema maioria das pessoas à miséria, em todo o mundo. Apostaria com muita vontade em uma mudança de modelo econômico para dividirmos mais o bolo e vivermos em harmonia com a natureza que tanto maltratamos. O meio ambiente vem agradecendo a redução de atividades humanas e se recuperando de tantas agressões sofridas. Estava na hora de pararmos pra pensar nisso? Ou já estávamos fora do compasso e fomos parados para que observássemos o que estávamos fazendo?
Neste livro somos informados que o Homo sapiens tem 300.000 anos de existência e ainda não se percebeu mortal. A pandemia provocada pelo novo Coronavírus e o número de casos e óbitos da COVID-19 revelou muito sobre a nossa espécie. A arrogância e a ignorância hoje tem voz e se sentem a vontade para favorecer o obscurantismo e o negacionismo, nitidamente observados pelos com- portamentos de governantes, no mundo, que minimizaram o problema, rumando contra a ciência. Que fique claro de uma vez por todas: não é uma gripezinha!
É indefensável que em nosso País, o Brasil, estejamos sem Ministro da Saúde em plena pandemia. É irresponsável prescrever medicamentos sem que haja comprovação científica da sua eficácia com a promessa de prevenção ou de não progressão da COVID-19, para sua forma mais grave e cruel. Ninguém é capaz, hoje, de determinar quem poderá ter a forma grave da doença, portanto, prescrever medicamentos para as finalidades acima citadas, a serem utilizados por pacientes que podem estar entre os 80% que cursarão assintomáticos ou com sintomas leves é fazer placeboterapia.
O vírus sem o homem não é nada! A nossa desigualdade social está com as vísceras expostas em cada homem e cada mulher que precisam sair de casa para obter, a cada dia o que comer. Nesse con- texto, essa obra indica o caminho, longo e difícil a ser percorrido. É necessário ter agenda para o futuro, baseada em mais educação, com autonomia e empoderamento dos indivíduos, em uma visão Freiriana, na busca de uma sociedade menos injusta. É preciso entender que preservar os ecossistemas é, na verdade preservar a humanidade, informação valiosa presente nos bem dimensionados capítulos e nas reflexões dos autores desse livro.
Confesso não estar muito otimista sobre mudanças significativas quando a pandemia passar e, mais uma vez, ficará para os mais jovens e nascidos em meio às novas tecnologias e imersos nas redes sociais, o desafio de ser e fazer diferente. Que a vacina ou um medicamento verdadeiramente eficaz possam chegar logo para conhecermos o que será essa “nova humanidade”.
Como é possível perceber, recomendo veementemente a leitura desse livro que como já mencionei, é fundamental, reflexiva, diversa e científica. Parabenizo os autores e desejo muito sucesso na caminhada por um mundo sustentável, ecológica e humanamente melhor.











































































